Receita para um 2015 mais feliz

Mude seus hábitos ruins. Um por um. Pense positivo. Faça o bem. Seja bom. Seja grato. Diminua o passo, a humanidade anda se movendo rápido demais. Pare para contemplar. Arrume tempo para investir em você mesmo, nunca se esqueça de você. Aprecie tudo e todos que estão contigo. Entenda que tudo tem um fim, a vida é cíclica. Faça um elogio, sorria para um desconhecido, diga algo bonito. Faça amigos. Seja gentil. Retribua gentileza. Pense no que você pode fazer para melhorar o mundo. Todo-santo-dia.

Feliz 2015!

Adeus, Manoelito

Passa assim, devagarinho Feito avião de papel Chove um choro dolorido Entardece em risos lá do céu A vida é finda, poetinha A palavra é imortal, o legado é sagrado Que fiquem tristes nossos vazios – “maiores, e até infinitos” Que seja eterno o nosso obrigado. Adeus, querido Manoelito Já não há forma alguma que te prenda aqui Transborda-te em prosa, renasça em poesia Voa alto, colorido, (fora das) asas de um colibri. manoelito * Simplória homenagem ao meu poeta preferido que nos deixou hoje. Adeus, Manoel de Barros. O corpo acaba, a tua poesia permanece. <3

Inexplicação

Eu já deixei de tentar entender. Já passei da fase em que repensava todos os nossos passos e analisava meticulosamente teus sentimentos por mim. Sabe, sempre fui muito de ponderar gostos e desgostos, apreço e desprezo. Sempre preferi analisar riscos e arcar com as consequências dos meus atos e, meu bem, meu coração sempre foi de vidro, embora bem vagabundo.
Não sei há quantos anos você está na minha vida; posso até parar alguns segundos para contá-los dedo a dedo, mas prefiro acreditar que desde sempre. Não entendo o motivo, não entendo tudo isso que nos une, mesmo quando estamos separados, mas não faço questão de entender. Foram anos sem contato e ainda assim – eu sei, você sabe – o pensamento ia e voltava. E quando você volta, eu sou pura inexplicação (inventei esta palavra para nos explicar).
A tua presença me faz bem, ainda que tua ausência tenha me rasgado o estômago e esmagado minhas entranhas com as mãos. Ainda que sua falta de amor tenha sido tão desertora comigo – mas o que não foi esta fase, senão apenas um aprendizado de nós dois, a exposição das nossas partes mais frágeis para que ainda continuássemos juntos? Tua presença me faz bem, isso basta. E sei que te faz bem também.
Estou feliz que tenha voltado. Que tenhamos entendido os desentendidos, embora ainda não faça a menor ideia de que lugar você ocupa em mim. Você é o meu melhor e o meu pior, você traz à tona todas as minhas facetas. Mas a diferença entre todos os outros é que nos piores momentos da minha vida, você sempre esteve ao meu lado. Segurando a minha mão e me lembrando que eu não sou esse poço de escuridão. Que minhas fases não me definem. E se isso não for amor eu juro que não sei mais o que é.

Brasil e a epidemia vira-lata

Brasil e sua eterna síndrome de vira-lata. Se acha patriota quem odeia o país e não curte futebol. Se acha patriota quem curte futebol, mas quer morar nos “States”. Se acha patriota quem grita alto o hino nacional com a mão no peito e vaia o hino alheio, quem queima bandeira, quem destrói patrimônio público pedindo por melhor infraestrutura.
Reclama que tudo está errado no país mas sonega impostos, emite nota fria, desrespeita o próximo, fura fila, dá um jeitinho e não sabe o significado de cidadania ou civilidade. Acha que tudo é mais bonito em qualquer outro lugar do mundo porque é incapaz de ter discernimento. É incapaz de contestar suas ideologias, seu posicionamento político e social, é incapaz de analisar fatos sem deixar de lado o orgulhinho ferido.
Tudo vira discussão ofensiva no Brasil, a não ser que concordem com a sua opinião – quem concorda é brother, quem discorda é burro, meu deus, como pode ser tão burro.
O Brasil sofre de uma epidemia vira-lata, síndrome “manda-chuva”: gato de rua que se acha esperto, que é melhor e mais inteligente que qualquer brasileiro, mas que se curva por qualquer coisa gringa. Tudo é melhor quando se cruza a fronteira. Porque o Brasil que não é igual ao meu umbigo é uma bela bosta e todo Brasileiro é um baita de um idiota burro se não for exatamente moldado à minha imagem e semelhança nórdica.

Ilusão é um veneno saboreado aos poucos

Ilusão é um veneno saboreado aos poucos. Insípido, amarga a boca apenas quando engolido aos grandes goles. Mas quem se ilude, geralmente se ilude em gotas.
O iludido é um colecionador – de frases soltas, de clichês baratos, de memórias e cenários inventados. Não perde um caco de provável sentimento alheio derramado ao chão e, a cada caco, concebe um valor que ele mesmo criou. A cada caco, uma gota do próprio veneno. 
Ilusões são enganosas, profundas e doem toda a dor do mundo. E até mesmo a ilusão mais antiga, quando volta, coça feito cicatriz velha. As gotas de ilusão não doem enquanto não existir clareza, mas quando se abre os olhos, elas cegam. É o grande gole amargo. 
Quiçá um dia o iludido aprenda que ilusão nada mais é do que expectativa e que todo sentimento não correspondido é uma facada no meio das costelas. E que consiga sempre viver de olhos abertos, longe das gotas que amortecem a língua e o cérebro. Que proteja sempre seu coração dos sorrisos mal intencionados mas que nunca o feche demais para os que lhe querem bem.

Desfecho

Tenho mania de desfechos, de começo-meio-fim. Tenho mania de me despedir e de dizer que amo como se fosse boa noite.
Costumava achar que essas manias estavam relacionadas ao fato de contar estórias, inventar enredos. Mas não. Minha mania de desfecho tem a ver com perdas.
Perdi pessoas e seus últimos suspiros. Não as vi indo embora, não previ partidas a tempo. Perdi o último adeus, perdi a última despedida, perdi o eu te amo engasgado em mim para sempre. A única coisa que disse é que eu voltaria amanhã; e o amanhã foi muito tarde.
Tenho pavor de que alguém vá embora sem saber o quanto é amado por mim. Tenho receio da dúvida, do coração angustiado sem entender claramente o significado de sua existência na minha vida. Tenho medo de que nunca saibam o quanto me mudaram, o quanto me inspiraram, o quanto me lapidaram com seus impactos.
Procuro sempre deixar um pedaço de mim em palavras, afinal, é o que de melhor tenho para oferecer. Então não se assuste se eu disser que amo cedo demais, se eu vomitar em versos tudo o que sinto, não se preocupe se eu for sempre tão coração, não me ache esquisita por nunca deixar conversas em aberto.
Eu aprendi na marra que é preciso deixar que a vida corra em seu ritmo. Eu não tenho expectativa nenhuma quando eu me despeço de alguém, nem ao menos espero que retribuam meu amor, que jorra líquido pelos meus poros. Mas, por favor, permita-me transbordar por todos os meus inteiros. Eu nunca soube aprisionar amores.
E gostaria muito que soubesse todas
as noites, quando coloca a cabeça no travesseiro, que meu amor está sempre contigo, todos os dias, até o nosso último adeus.

A menina

Algo claramente estava fora de lugar. Algumas gavetas reviradas, um vazio que não preenchia nunca, uma sucessão de acontecimentos errados. Por onde andava aquela menina que tecia tantos sonhos e que depositava sua crença mais profunda no coração dos outros?
Sentia falta de não sentir os ombros, de ter sorrisos largos, não suportava essa estranha sensação de que algo lhe pesa na própria face: guardava a vida inteira em volta dos olhos. Ao seu redor, um escudo defensivo protegia todas as suas paredes. Quando foi que eu mudei? – se perguntava.
As pessoas que a conheciam há tanto tempo sussurravam adjetivos que não mais combinavam com aquela armadura negra, pesada, que lhe dilacerava a pele e moía os ossos. Fardos. Ainda tentava arduamente guardar o pouco que sobrava de doçura por dentro, mas esvaía-se sem pressa pelos dedos, feito areia fina em ampulheta. A vida era tão dura, mas não precisava ser. Havia se tornado refém das próprias escolhas, talvez por conta desse vício em encarar tudo como um desafio, em superar, crescer, evoluir. Não queria nunca continuar na mesmice, embora não notasse que, agora, a armadura era o que tinha de menos efêmero. A mesmice do caos, uma bagunça constante.
E como em prece, sussurrava baixinho, seus versos preferidos de Mia Couto, com a esperança de que eles lhe trouxessem de volta. E eles lhe traziam mãos pequenas para segurar-lhe as mãos calejadas que doem constantemente. A criança lhe sorria com os olhos, aquele brilho que não conseguia mais encontrar, como se no fundo a criança soubesse que fora sempre tão teimosa e acabaria enfrentando seus próprios monstros sem receio.
Me dá a mão – dizia. E o fardo de tantas décadas cabiam inteirinhos em dedos gorduchos de uma mão tão pequenina. Passou alguns minutos fitando os furinhos que tinha entre os dedos e que sua avó tanto gostava. Vamos – disse a menina – preciso que te olhe de novo.

“É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou.”

 

A menina levava aos espelhos. A menina era um constante cordão que a mantinha ligada à sua essência e não permitia que afundasse em pedra.

Preciso de mais tempo para nós duas.

 

Mão no ombro

Hoje assisti à um super 8 de quando você era criança, acho que tinha uns seis anos. Teu olhar esvaziava a câmera, você sempre teve um dos olhares mais cheios que já vi. Havia nele aquele brilho teu, aquela esperança bruta de uma criança que acredita nas pessoas, que espera pelo que há de melhor, já que durante a infância o melhor está sempre por vir. Havia no fundo dos teus olhos escuros aquela ingenuidade leve, quase sorrindo pra mim, e me doeu tanto perceber que você ainda não fazia ideia do quanto se machucaria nos próximos vinte anos.
A vida nunca te foi branda. Durante teus próximos anos você armazenou fardos pesados demais para um ser humano. A vida te esmagou como a um pequeno inseto e eu nada pude fazer que não fosse observar como você reagiria e esperar teu melhor.
Você sempre foi meio fênix e independente do tombo, sempre se levantava por inteiro. Vez ou outra, embora desmoronando em pedaços, erguia-se ali, forte, esperando o próximo desafio, a próxima porrada. Continuava caminhando como um desses lendários guerreiros medievais que, com o peito cheio de flechas, ainda continuava em pé.
E eu sei que às vezes o dia em você morre cinza, teu corpo esfria como se nenhum abraço no mundo acalentasse. Eu sei que chora entrelaçando os joelhos de vez em quando, em um desejo quase idiota de voltar ao útero da tua mãe. Eu sei que o desespero escorre gelado sob o teu rosto noites adentro.
A tempestade não te dá muita trégua e a bonança é sempre breve. A vida testa tuas forças, teus limites, teu poder emocional. E eu te acho a pessoa mais forte do mundo, embora saiba que odeia ser forte o tempo todo e este é outro dos fardos que carrega.
Hoje eu só queria puxar esta criança que me olha a alma pelo vídeo e me sorri um sorriso torto, como se soubesse quem eu sou. Hoje eu queria puxar toda a tua ingenuidade em um abraço e acolher-te na minha imensidão. De onde eu te olho não existe dor, apenas admiração. Mas queria muito te colocar no colo e te dizer “minha criança, um dia suportará todas as dores do mundo e te prometo que estarei sempre contigo, chorando quando tiver que chorar, sorrindo quando tiver que sorrir. Serei sempre este peso leve no teu ombro direito, o peso da minha mão quando precisar de amor. Agora só te peço uma coisa: guarda esse brilho nos olhos. Não deixe que a vida endureça tuas esperanças no melhor, porque ainda há o melhor de ti. Guarda teu brilho para o futuro, criança, e acima de tudo, nunca perca essa profundidade abismal que você tem. Agora vai, levante. Seja forte e continue. This too shall pass.”

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