Tango

Sabe, eu poderia te escrever mil páginas sobre ela e ainda assim duvido muito que consiga entender toda a dimensão que ela ocupa. Foi na primeira vez, quando meus olhos dispersos entre livros e pessoas se fixaram nos olhos dela – e ela já me olhava – que eu soube que alguma coisa muito incrível estava para acontecer. Eram duas faíscas tristes. Havia um brilho, uma chama, quase que uma vida inteira nos olhos dela, mas eu sentia o peso de quem viveu demais aqueles quase trinta anos. 

Ela rapidamente desviou o olhar quando percebeu que meu mundo havia parado. Tinha algo nela que me paralisava todos os músculos do corpo. Ela era linda. Mas além de linda, ela era pesada. Ela tinha tanta bagagem no canto dos olhos que eles se derramavam simetricamente sobre as suas bochechas rosadas. Ela trazia um buraco negro inteiro nos olhos. 

Os anos se passaram e eu nunca fui tão feliz e infeliz ao mesmo tempo. Deus, como ela me doía. Ela foi o erro mais certo que já tive. Ela foi a imperfeição mais perfeita que eu já conheci e em cada pedaço do seu corpo eu morri um pouco. E nasci também. E em todos esses anos, que foram muitos, eu conheci os extremos entre morrer e nascer, entre a felicidade e angústia, todos ao mesmo tempo. Porque ela, na verdade, nunca foi inteiramente minha. Ela era dela. Completamente dela e do mundo inteiro, menos minha. Eu não passava  da catarse da sua loucura criativa.

Ela era livre. Ela era cheia. Ela era triste como um longo tango de Gardel, mas quando sorria, ah, ela era inteira blues. E eu só aprendi a dançar com ela.

É difícil acordar sem o peso da coxa dela sobre a minha, mas mais difícil ainda é não poder vê-la sentada na mesa da cozinha, bebericando seu café forte, dedilhando a beirada da xícara cheia de tristezas. É difícil passar um dia sequer sem sentir as curvas erradas do seu corpo, o gosto da pele e o calor das suas virilhas. Eu a reconheceria em braile, se cego fosse.

E ainda que venham novos amores, novas histórias, eu sei que em mim ela nunca morrerá. Ela é viva como uma chama que não se apaga nunca; quanto mais eu assopro, mais oxigênio ela queima. 

Quando a gente pega um bicho

Quando a gente pega um animal, nunca se sabe exatamente quem resgatou quem. No fundo, a gente acreditou que aquele bichinho precisasse da gente mais do que qualquer ser humano neste mundo. Como ousaram deixá-lo de lado? Como ninguém se interessou por ele antes? O que teria acontecido com ele se não estivesse comigo? Não sabem o que perderam. Digo isso todos os dias.

Quando a gente adota um animal, imagina que o processo seja de entrega, mas ao longo dos anos percebe que o processo é realmente reverso. Adotar um bicho é puro recebimento. 

Somos salvos por lambidas, rabos abanando, ronronados e pulinhos de felicidade todo santo dia. Somos salvos por aquela manha exclusiva que nosso bicho nos atribui e que nos torna alguém único. É como ser batizado. Minha coelha tem mania de ficar entre as minhas pernas e me dar cabecadinhas na canela, apenas comigo. Minha gata tem um miado só meu, um uréu uréu muito alto e com o erre bem pronunciado. Meu cachorro fechava os olhos sempre que me abraçava. É o reconhecimento. É o processo de resgate que te faz vivo, te faz único. 

Não há dia ruim que não melhore com   tanta alegria quando abrimos a porta de casa. Não há dia estressante que não acalme com o ronronar sobre a sua barriga. Não há nada que supere o olhar de entrega de um bicho. 

É no olhar que os bichos amam, principalmente aqueles que não emitem sons. É no olhar que identificamos suas pequenas personalidades tão incríveis, cada qual a sua maneira. É no olhar de vulnerabilidade e, ainda assim, confiança absoluta, que a gente se resgata todo dia. É na troca. É na barriga pra cima, mostrando sua parte mais frágil, é no enrolar de corpos, no abraço espontâneo.

Costumo acreditar que bichos curam. Que despertam sorrisos mornos e gargalhadas genuínas mesmo quando não temos força para ver graça na vida. Que nos revitalizam sempre que colocam seus pequenos focinhos bem perto do nosso nariz para dividir o mesmo ar. 

Quando você pega um bicho, meu amigo, quem é resgatado é apenas você. Quem tem bicho é salvo todos os dias.

A casa escondida dos meus avós

A casa dos meus avós paternos era um pequeno esconderijo. Eu adorava a ideia de subversividade em subir até o oitavo andar de elevador e pegar uma escadinha escondida, que dava para o único apartamento que ficava em cima do prédio. Era o esconderijo no topo do mundo. 

Vó esperava a gente na porta, abraçava forte e me chamava de “minha boneca”, depois contava os furinhos da minha mão. Ela fazia o melhor macarrão do mundo. Na cozinha do apartamento escondido havia sempre uma vela de sete dias acesa para o meu pai. E enquanto ela rezava e olhava para a vela, cozinhava o espaguete, acrescentava gemas de ovo, manteiga e queijo parmesão. Já disse que era o melhor macarrão do mundo? Mesmo tendo feito inúmeras vezes, nunca teve o mesmo sabor. Tinha sabor de casa de vó é isso nunca poderá ser reproduzido.

Vovó puxava as cadeiras da cozinha para a sala e as colocava na frente do sofá, para que servissem de mesinha  para mim e para a minha irmã. Ao lado da TV, havia uma toalhinha de crochê feita à mão por ela e dois porta-retratos: um do meu pai, outro do meu avô. Ambos em branco e preto, muito semelhantes. E essa foi a presença mais constante que tive do meu pai durante a minha infância – a vela de sete dias e a fotografia ao lado da TV. 

Na casa dos meus avós não se dormia em época de carnaval, a escola de samba ensaiava e o samba entrava até pelas narinas. Vovó cantava o boi da cara preta e me enchia de medo antes de dormir, mas  a maldade do boi se dissolvia em samba e eu adormecia no seu quarto branco de portas corridas.

Do meu avô Rinaldo, tenho poucas lembranças. Lembro de caminhar de mãos dadas com ele pelo antigo posto que ficava na esquina da Inácio com a Girassol para andarmos de Variant verde. Lembro de pequenos flashes de sua existência durante meus primeiros seis anos de vida. Mas lembro-me claramente do dia em que partiu e vovó entrou aos prantos pela porta da casa da tia Santa. Levaram-nos todos – as crianças – para a área de serviço para que não ouvíssemos os choros. E alguém, talvez minha mãe, não me lembro ao certo, teve que responder às perguntas incessantes dos cinco netos que não entendiam nada sobre a morte. “Estão vendo aquela estrelinha ali piscando? Vovô foi morar lá”. 

E por muitos anos da minha vida acreditei piamente que toda estrela que piscava no céu significava que alguém estaria de mudança pra lá. E tudo o que morria, iria morar em alguma estrelinha piscante.

Olhar para o céu à noite nunca mais teve outro significado, senão lembrar os que já me foram. 

Branco

Os dias passam e a gente vai vivendo. Fingindo. Não sendo.

A vida passa e a gente vai sorrindo. Partindo. Morrendo. 

E o que fica é a pele grossa da cicatriz provando que a gente é cada vez mais escudo por fora – e por dentro.

Amor no limbo

A verdade, no entanto, é que eu gosto muito de você. Mais do que deveria, mais do que poderia. Eu fantasio um pouco com a nossa história e é difícil. Difícil porque o nosso relacionamento existe num limbo entre os nossos paralelos e eu acabo me envolvendo e me perguntando até que ponto vale a pena ter você em mim por todos os minutos do dia, sem te ter de fato – e eu sei que valeria se toda essa importância fosse exatamente recíproca.

Amar no limbo é difícil. Porque não há o toque no rosto pra acalmar qualquer dúvida, não tem o abraço apertado pra sossegar o fim do dia, não traz o olhar que promete que a sua pele tem o gosto de mais ninguém. Amar no limbo não tem a fala leve na ponta do ombro depois do orgasmo, a risada boba que apaixona instantaneamente, não tem o prato preferido feito num domingo à tarde e nem o braço entrelaçado no sofá. Amar no limbo é triste porque você está sempre dividindo, se dividindo, tentando entender exatamente que lugar da prateleira teu amor ocupa. E se culpa. 

E a única certeza que tenho é que não há como assegurar o amor fora do limbo, mas pode-se contemplá-lo. Dá pra interpretá-lo no cheiro, no olhar, no som do riso. Fora do limbo, te prometo, é tudo diferente. 

Por enquanto, aqui dentro, a única coisa que tenho é o meu sentir. E te sinto por inteiro.

Feliz todo dia, mãe

Passei muitos anos te vendo como um super humano, uma super heroína e me lembro do quanto moía minha alma cada vez que eu percebia qualquer sinal de fragilidade embaixo da sua armadura quase inabalável. Você era meu chão e não podia nunca quebrar.

Hoje, do alto dos meus 35 anos, um ano a mais do que você tinha quando perdemos o papai, entendo que você nunca teve super poderes. Você era apenas uma menina, como eu, com um pouco mais de bagagem e resiliência, um pouco mais de feridas da vida. E talvez eu tenha precisado mesmo chegar nessa idade para entender um pouco da dimensão da vida que você teve e do quanto conseguiu colorir nossas infâncias de uma maneira que eu só tenha as melhores lembranças. Meu orgulho e admiração por você só crescem.
Agradeço todos os dias por te chamar de mãe, por ter me inspirado tanto a ser quem sou hoje. Obrigada por ter me ensinado a ser tão forte mas, acima de tudo, obrigada por ter me mostrado que é sim necessário ser frágil de vez em quando. Que tudo bem chorar, que o tombo faz parte do processo.
Sabe, mãe (você sempre sabe), às vezes eu esqueço que eu não preciso segurar o mundo com minhas unhas e dentes sozinha. Faz parte de mim querer enfrentar meus próprios monstros e me manter em pé, afinal, foi esse o exemplo de mulher que eu sempre tive em casa. Mas toda vez que minhas pernas bambeiam, toda vez que meu maior desejo é de me curvar no teu colo e voltar para a segurança da tua asa, escuto de você que eu não estou sozinha. Que não preciso passar por tudo sozinha. Que minhas escolhas não me limitam. E eu nunca saberei agradecer o suficiente por tudo o que tem feito por mim. Ainda aprendo todos os dias contigo. 
Obrigada por ter sido essa super mãe e, mais ainda, obrigada por ter sido essa super mulher. Que sempre segurou a barra, sempre resolveu tudo sozinha, leoa matriarca que trabalhava em dois empregos e chorava quando pegava a gente já dormindo da casa da vovó. Porque nunca existia tempo suficiente, mas se olharmos pra trás, sempre houve. O tempo foi nosso melhor amigo. 
Obrigada por ter me inspirado a ser mulher e levantar por todos os meus direitos, por todas as minhas bandeiras, por nunca ceder, por sempre ter voz, por investir nos meus sonhos, por ir atrás e fazer acontecer. Obrigada por tudo e por tanto. Te amo um absurdo. 

Dança

É que eu queria saber se quando a chuva chora triste na sua janela você pensa em mim.
Se o seu travesseiro também guarda flashbacks nossos que te invadem antes de dormir.
Queria saber se quando fecha os olhos consegue se lembrar do seu polegar no meu pulso direito, acaraciando o silêncio que dizia tudo o que não precisava ser dito.
Me pergunto se alguma vez alguma lembrança minha te fez sorrir. E se guarda em você alguns frames meus que te atormentam de repente no meio da multidão.
E se existe alguma coisa minha que te invade quando você menos espera e que fica. E se grita.
E se a saudade vira falta e a falta vira vontade de querer ter começado tudo de novo.
Eu só queria saber se existo aí dentro de você – onde pouca gente alcança – e se lá dentro a gente dói ou dança e acontece num universo qualquer.

Perto

É que apesar de te ter por perto há tanto tempo, ainda queria saber pequenas coisas sobre você. 

Como você é quando acorda. Que carinhos você faz antes de dormir. Será que rouba beijos no meio da tarde, será que entrelaça dedos no escuro? Queria saber se gosta de café forte com bolo de fubá. Se ri de coisas bobas. Se procura formato nas nuvens. Se segura o rosto com as mãos antes de beijar a boca. Se grita que ama no meio da briga.

É que apesar de ter pequeno há tanto tempo, ainda queria saber coisas sobre você bem perto.

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