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Recado da Nasa

Eu dormindo, um helicóptero fazendo barulho lá fora. Um mega-fone, micro-fone ou sabe-se lá o que dizia:

- Aqui é a Nasa. Estamos sendo atacados por aliens. Repito. A Terra está sendo atacada por aliens. Fechem as janelas e tranquem as portas. Não saiam de casa. A Terra está sendo atacada por aliens.

Eu acordei achando que era pegadinha. Olhei no jardim e tinha uma movimentação estranha. Corri pra fechar a janela do quarto e lembrei que a da cozinha não fecha direito. Entrei num semi-pânico. Disse pro David:

- Pega a faca.

E comecei a encher uma sacola da Boots de chocolates. Fiquei olhando pra janela, sentada no chão da cozinha, com uma faca na mão e uma sacola de chocolates.
O David me perguntou o porque dos chocolates.

- Se a gente for abduzido, pelo menos não morre de fome.


Sim, foi um sonho. E eu que não curto ficção científica, hein…

 

TPM, mulher louca e presente

Ontem recebi o presente da mamãe. Além dos livros que minha prima trouxe daquela vez, chegou uma caixa enorme. A minha bolsa DIVINA da Iódice e mais uma preta, um monte de Boa Forma, Corpo a Corpo e apetrechos brasileiros pra fazer a vida mais feliz: itens de manicure e tempero baiano. Só mamis mesmo. Só mamis pra mandar matéria de revista arrancada que eu poderia gostar de ler.
Além disso veio um presentinho mega especial da minha amiga, Ligião. Amei, chuchu, obrigada mesmo, viu!
Só não veio o Billy. Dava tudo pra abrir a caixa e dar de cara com ele…

Tô numa TPM do cão. E essas semanas tem sido complicadas no trabalho. Contrataram uma mulher em experiência, por volta de uns cinquenta e poucos anos, e a mulher me tira do sério. Ela é meio louca, fala uns papos do além, me lembra até a avó do David. Além disso, tem um temperamento totalmente bipolar, umas crises de raiva que me davam medo. E passa o dia reclamando e reclamando que mandem nela, não tem a menor habilidade de serviço ao consumidor. E eu tentando ser super educada, delicada, fico pensando na minha mãe que também trabalha e não quero imaginar que a tratem mal.
A minha gerente colocou ela comigo direto porque acha que eu sou a mais paciente. Pô, e eu tenho que ser punida por ser paciente? Enfim, minha paciência teve limite.
Chegou segunda-feira e a minha gerente me perguntou como estava sendo trabalhar com a mulher. Eu desabei e contei tudo. Me senti péssima, não queria ser responsável por alguém perder o emprego, mas as minhas colegas de trabalho diziam que eu era a única que podia contar o que estava rolando.
Ontem mandaram ela embora. Eu fiquei meio mal, mas ao mesmo tempo não fui eu quem fez todas as cagadas dela. E sinto um aliviozinho por não ter mais nenhuma shift com uma pseudo-avó-do-David (Gente, de loucura humana eu tive enough! Que o diga quem acompanhava o blog em 2005…)

E posso falar? Dá uma deprêêê ler Boa Forma e Corpo a Corpo aqui…
1 – Todo mundo bronzeado e saudável.
2 – Dietas com almoço decente (coisa impossível deste lado).
3 – Tratamentos estéticos (saudades gigantes disso).
4 – Dicas de salão que não custam em libras.
5 – Manicure, pedicure, depilação.
6 – Fotos do povo correndo de shorts.

Eu morro de saudades da Andréa, minha esteticista. Odeio não fazer minhas massagens semanalmente. Me fazia um bem danado.

A TPM continua, obrigada. Ando dando umas patadas em algumas pessoas (me desculpem, se a carapuça servir). É puramente hormonal.

Venha logo, menino

(Continuação do post “Venha de novo, menina“, abaixo. Desce a tela!)

 

Se ao menos eu entendesse o que se passa dentro de você, se pudesse colocar os dedos aí dentro e embaralhar tudo de novo. Te escrevi cartas que nunca vou mandar, decorei versos que nunca irei dizer, digitei seu número de telefone tantas vezes e não liguei. Li teu autor preferido, ouvi tuas músicas bobas, passei a tarde com aquele teu álbum de foto amarelado da década de oitenta. Te fiz brigadeiro de panela e te mostrei a profundidade física e a superficialidade emocional.
Sei de tudo sobre a sua vida e nada sobre você. Também tenho medo, cara. Mas não quero que tudo isso se perca. Gosto de você pra caralho. Quando olhar a lua cheia estarei olhando também e pensarei em você. De onde você veio? Pra onde você foi?
Leva um pouco de mim contigo, menino. Você mexeu em mim onde poucos haviam chegado. Pronto, falei. E você nem está ouvindo.
Se eu me machucar, prometo catar meus cacos pelo chão antes de sair. Não vou deixar me apaixonar, mas tenho medo de emoções. Vem de novo, só preciso que você venha. Estique um pedacinho de você e eu faço o nada virar o tudo mais lindo que você já teve. Venha logo, menino, mas venha sem medo de déjà vu. Nenhum de nós vai machucar mais que a própria vida.

Aviso

Já disse aqui uma vez que nem sempre o que escrevo é o que sinto ou o que acontece comigo. Tenho alguma coisa de psicografia, às vezes tenho que escrever algo que não tem nada a ver mesmo. E a categoria “Contos, crônicas e ladainhas” é principalmente um lugar de ficção. Como ainda tem gente achando que eu só escrevo o que se passa comigo, vou começar a colocar os textos em formatação diferente! Assim vocês não se confundem! ;)

Venha de novo, menina

Tudo o que eu queria dizer pra ela eram palavras tolas, frases meio feitas, coisa superficial que não revelava absolutamente nada. Estava cansado de querer muito mais do que podia dar. Não queria, não podia, não devia, mas principalmente não devia mostrar um fiapo de sentimento. Era perigoso demais. Então ficávamos assim, ela e eu, nesse correio elegante subjugado, sem liberdade nenhuma, sem nada que pudesse vir à tona. Estava cansada de se decepcionar e construir fantasias, disse ela. Eu também, porra. Mas queria tanto essa fantasia pra mim.
Tinha medo que acabasse um dia todo esse sentimento insensível dentro do peito. Tinha que fingir não ter nada por dentro. E ela chorava, até, uma lágrima branca, lúdica, de sal. Uma lágrima vazia. Um peito de pedra. Um coração remendado com todas as dores de vinte e quatro anos.
E eu que só queria dizer tanta coisa e não podia, remediava o que havia dito e escolhia letras para redizer. Tudo com muito cuidado, com muita cautela. E quando não dizia, simplesmente não dizia. Vazio, branco. Um silêncio redondo cheio de coisas presas. Uma bolha de ar com um monte de palavra.
Não quero que ela vá, também não quero ir. Ela não é minha, eu não sou dela, mas gosto da gente assim. Prefiro a gente junto, é verdade. Sem medo, sem todo esse nada. Onde foi que tudo isso começou?
Quero aprender a falar. Quero sentir o cheio, o que derrama. Quero transbordar de coisas a serem ditas, coisas ditas, sentimentos plenos. Pare um minuto, menina. Sente meu cheiro? Estou mais perto do que imagina. Estou nesse bolha vazia em volta de você, nesse mundo preenchido por sabe-se-lá-o-quê. Estou aqui, menina, vem de novo. Vou sentir saudades das nossas tardes tolas, dos filmes bobos e da pipoca queimada. Vem de novo. Continua aqui, em mim. Nenhum de nós vai machucar mais que a própria vida.

Rinaldo

Rinaldo Castino, meu avô paterno. Dizem que era a pessoa mais doce que eu conheceria. Quando vovô Rinaldo faleceu eu tinha apenas seis anos, minha memória guarda muito menos lembrança do que eu gostaria.
Filhos de italianos também, originários de Piemonte, da Commune di Castino, onde todo mundo deve ser meu parente.
Eu não me lembro de muita coisa, apenas de cenas marcadas como frames na minha mente. A Variant verde, me lembro muito bem dela estacionada lá depois do posto de gasolina na esquina da Girassol com a Inácio. Me lembro daquele caminho de mãos dadas com ele, rumo à Variant verde.
Dizem que minha irmã cortava seu cabelo enquanto ele cochilava, tenho uma vaga lembrança de sentar-me nas costas do sofá e observar o cemitério São Paulo da janela do último andar daquele prédio. Prédio baixinho, na esquina da Fidalga, onde a gente subia até o oitavo andar e continuava por uma escadinha. Onde a foto do meu pai ficava no porta-retrato, ao lado da televisão.
Também me lembro de um dia em que levei meu primeiro tombo consciente numa onda de mar. Tentei respirar debaixo d´água e não consegui. E tenho a nítida imagem dele através da água turva me puxando pra cima. Eu não devia ter mais de três anos, mas minha memória é assim mesmo. Guarda coisas que até eu duvido.
Dizem que seu pai ou avô montava e dirigia carros de corrida. Morreu em um acidente na Serra do Mar durante um teste, se não me engano. Talvez venha daí minha paixão por fórmula 1, meio intrínseca no sangue.
Também me lembro dos ladrões terem trancado ele no banheiro quando fomos assaltados na Girassol, e falavam com ele de uma maneira tão grosseira que eu não conseguia entender porque. Ele era tão doce.
Vovô Rinaldo foi o meu primeiro contato com a morte depois de entender um pouquinho sobre ela. Foi na casa da tia Santa, e deveria ser domingo se estávamos lá, pois era lá que assistíamos aos Trapalhões enquanto comíamos sanduíche de presunto. Foi naquele dia que nos tiraram rapidamente da sala, eu, minha irmã e meus primos e nos levaram para a área de serviço. Lembro-me da minha avó entrando pela porta, vermelha de tanto chorar. E, acho que foi minha mãe quem ficou conosco, nunca me esqueço disso. Paramos todos e volta da janela da área de serviço, eu e mais quatro crianças. Apontou uma estrela muito brilhante no céu:
- Estão vendo aquela estrelinha brilhando bastante? Foi pra lá que foi o vovô Rinaldo.
Eu fiquei indignada, porque ele iria sem se despedir, afinal, porque ele iria?
- Toda vez que uma estrelinha brilha é porque alguém chegou. Foi pra lá que o papai foi também.
E aí tudo fez sentido. Vovô Rinaldo foi encontrar o papai na estrelinha. Eu queria muito ir pra lá também. Mamãe disse que um dia todos nós iremos.
Até hoje quando vejo uma estrela brilhante me lembro desse dia. Mágico. Doce. Como ele.

Chão branco

Eu sei que ela diz que está tudo bem, mas talvez não queira perguntas além do teu ombro, da tua mão vazia estendida. E eu sei que ela sabe que nem tudo é certo, que as luzes não estão acesas e nem sempre eu tenho algo de bom pra dizer. Parece que tem chovido sempre em cima dela, mas não a deixe saber, pois seu sorriso ilumina tudo e ela não percebe. Mesmo olhando fundo dos seus olhos cansados. Seu coração calejado amacia quando ela fala essa voz que só ela tem.
Ninguém gosta de ser deixado sozinho, ela não quer se decepcionar. Ela gosta de ver o pôr do sol, mas não enxerga mais além do próprio passo.
Ela caminha intocável entre a neve, passos duros sobre o chão branco, gotas congeladas que se derretem no rosto. Parecem lágrimas. Mas ela não sabe, então continua caminhando sem nada por dentro.
Parece que tem chovido sempre em cima dela, mas não conte. Ela não percebe e continua sorrindo esse sorriso grande dizendo que vai tentar.

And I´ll be there waiting for you

Sempre haverá alguém esperando por você, onde quer que você esteja. Um pai, uma mãe, um amor, um filho, um amigo. E essa é a melhor certeza da vida.

A gente brincando na garagem. Vovó vinha da sala, segurava no meu ombro e olhava nos meus olhos:

- Não aceite nada de ninguém.
- Tá, vó.
- Nada. Mesmo se disserem “olha, pega essa bala, uma delícia”. Mesmo se for igualzinha à bala Soft. Não aceite nada.
- Tá, vó.
- Se insistirem diga “não, obrigada”.
- Tá.
- Mesmo se disserem “prova essa balinha, tem figurinha dentro”. Ou “prova essa balinha e você ganha uma bicicleta”.
- Tá.
- Não aceite nada, nada, nada, nada de estranhos.
- Tá, vóóóó.
- Diga “não, obrigada”. E se insistirem, entra pra dentro.
- Não, obrigada.

 

Aprendendo.

Micro-crônica Casa da vovó – I

Vovô e eu, um dia qualquer de mil novecentos e oitenta e poucos. Provavelmente uma tarde. Provavelmente a cozinha, de azulejos portugueses branco e cor-de-vinho. Cheiro de café coado em coador de pano. Lata de manteiga Aviação em cima da mesa.

 

- Mi, vamos comprar pão.
- Italiano ou francês?
- Italiano.
- Quero francês.
- Italiano e ganha um pacote de figurinha.
- Turma do Arrepio?
- Moranguinho.
- Tá. Italiano.

Obrigada, Mônica

Só queria um tiquinho daqui pra agradecer publicamente ao comentário da Mônica Fielder, no post “100 MIL”. É por isso que eu continuo aqui, me metendo em enrascadas e escrevendo.
Muito obrigada, mesmo, Mônica. Seu comentário me encheu os olhos de lágrimas.
E eu adoooro vocês, seus escondidinhos que nunca aparecem e, de repente, deixam uns comentários lindos desses!!

Destino

Os meus melhores posts eu escrevo mentalmente, enquanto estou caminhando. Indo ou voltando de algum lugar neste país semi-estranho, debaixo deste tempo que a gente não se acostuma, com alguma trilha sonora no ouvido e rostos não muito amigos em volta. Queria um gravador mental. Aperta o rec e depois reproduz.

São poucas as vezes que volto do trabalho à noite e sozinha. Geralmente o David vai me encontrar e caminha comigo. Mas essas caminhadas sozinhas, debaixo da luz amarela de Reading, me fazem pensar em tanta coisa. Destino. Será que estava escrito em algum lugar que um dia eu caminharia debaixo da luz amarelada da cidade do interior da Inglaterra? Será que o meu futuro já desenhava patos e cisnes no cenário? Ou fui eu quem mudou tudo isso?
Eu acreditava mais em destino. Aliás, eu acreditava mais em tanta coisa. Até maçã pra duende eu colocava quando era criança. Hoje sou menos vulnerável, mais cautelosa com qualquer tipo de crença e sentimento. E eu sei muito bem quando tudo isso mudou, foi quando pedi com todas as lágrimas de um ser humano para Deus mudar o imutável. Para a certeza da vida virar milagre. Lembro-me muito bem daqueles dias, daquela dor, daquele frio na espinha quando tudo acabou, das promessas em vão e da vontade de fazer um homem de 89 anos continuar. Não continuou. E a fé esvaiu por um bom tempo entre os dedos, líquida.
Foi-se também um pouco da crença no destino. Mesmo porque o universo nunca conspirou muito a favor de eu estar deste lado de cá. Talvez eu tenha mudado. Talvez não. Uma cartomante disse pra minha mãe quando eu era criança que uma de suas filhas iria embora pra longe.
Até que ponto a gente interfere eu não sei. Acredito que talvez tenhamos alguns pontos-chave marcados na nossa vida, os acontecimentos mais importantes. Mas também acredito que temos o poder de mudar o percurso, aumentá-lo, diminuí-lo, desviar um pouco dele.
Eu não me arrependo de nada. Não me arrependo de ter feito, de ter tentado, de ter insistido. Um dia entenderei melhor se insistir é em vão ou não. Enquanto isso, continuo caminhando sob a luz amarelada de Reading.

100 MIL

O Samba tá na beirinha de atingir os cem mil acessos e, óbvio, quando isso acontecer eu provavelmente estarei vendendo goiaba. Então queria aproveitar pra dizer pra vocês o quanto isso é gostoso!
Pra quem não sabe ainda, o Samba é o quinto blog que eu tenho, de uma geração que começou em 2002, com o extinto PopcornBag. Depois veio o Saco de Pipocas, o Do outro lado da Bolinha e o Time to Be (o blog mais deprimente que eu tive). Pra sair da linha deprê, eu larguei o Blogspot e vim pro WordPress, tudo novo, vida nova. Este aqui ainda é novinho!
Então queria agradecer do fundo do coração à todos vocês, meus leitores queridos, que vem aqui – seja pra ver as enrascadas que me meto ou as besteiras que escrevo, seja pra ler meus contos ou somente pra saber o que tem se passado na minha vida. Sei que tem muita, muita gente aí que vem aqui há anos e nunca nem comentou. Gente que assina o feed, eu vejo os emailzinhos de vocês lá! E é pra vocês também, estes meus leitores quietinhos, que esse agradecimento vai do fundo do coração. E, claro, esse bando de gente que eu nunca conheci (ou já) e que me acompanha há quase OITO anos, seja lá onde eu estiver, seja lá qual for o blog ou o provedor…
A gente sempre fala que escrever um blog é como um diário virtual. Mentira. Se fosse pra escrever diário eu comprava um caderno ou abria um documento no Word. Sem vocês isso aqui não tem a menor graça. Entrar aqui e ver 10 comentários de uma vez faz meu dia. Eu escrevo pra mim e pra vocês.

Como diria Drummond, em sua última crônica antes de morrerAos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

Ou “Sopa apimentada de abóbora com queijo feta“. Ou: a minha mais nova invenção. Delicinha.

Pra quem tá deste lado de cá, nada melhor do que uma sopinha nessa época do ano. E eu, aqui há dois anos, já virei craque em sopa de tudo quanto é tipo, mesmo porque não sou muito fã de abrir uma lata e comer. Além disso, sopa é muito fácil de fazer. Essa eu inventei essa semana e é uma delícia.
Aqui eu uso butternut squash, que não é exatamente uma abóbora, mas é prima. Dá pra usar qualquer uma delas. Se quiser, dá pra fazer até com cenoura!
Uma das minhas combinações preferidas com sopa de abóbora é paio (maravilhosa), mas como quem não tem cão caça com gato, eu parti pro queijo feta.
Quem quiser fazer, faça. Dá um up nesse friozinho!

CREME DE BUTTERNUT SQUASH COM QUEIJO FETA

Ingredientes
- 01 butternut squash ou abóbora pequena
- 1/2 cebola
- 2 dentes de alho
- 1 tomate, ou molho de, ou massa de…
- 1 cubo de caldo de carne ou legumes
- 100g de queijo feta cortado em cubinhos
- 1 pitada de gengibre em pó
- 1 pitada de noz moscada
- Pimenta do reino moída à gosto
- Sal à gosto
- Salsinha
- Cebolinha
- Óleo ou azeite de oliva pra refogar

Modo de fazer

Se você não tiver panela de pressão, o jeito mais fácil de usar abóbora é assá-la primeiro. Lave, faça alguns furos com uma faca, enrole em papel alumínio e asse por mais ou menos 20 minutos. Quando esfriar um pouco, corte e retire as sementes.
Numa panela refogue o alho, a cebola e o tomate. Acrescente a abóbora ou butternut picada e refogue. Cubra com água, coloque o cubo de calde de carne e deixe cozinhar um pouco. Não deve precisar de muito cozimento porque ela cozinha no forno.
Acrescente as especiarias (noz moscada, gengibre e pimenta). Retire do fogo e processe até se tornar um creme. Quando estiver pronta, coloque os cubinhos de queijo feta, a salsinha e a cebolinha e sirva imediatamente. Se você for que nem eu ou o Mick, marido da Fee, acompanhe com umas gotinhas de Tabasco! E bom friozinho!!! =)

Joana

Bonita, bonita, ela nunca foi. Tinha o rosto manchado de puberdade, olhos caídos, muito negros, e de uma profundidade assustadora. Seus cabelos eram ruivos, quase cacheados, mas pareciam tão mal tratados quanto ela. Ah, Joana, se soubessem o quanto de água já escorreu por estes olhos fundos, o quanto de mágoa ainda reluta em permanecer lá dentro, onde ninguém ainda havia mexido.
Passara uma vida assim: sentada na cadeira da cozinha lendo Bukowski, cantarolando Chico Buarque e ajudando a vó Odília a sovar o pão que vendia. Dos trinta anos que tinha, se lembrava da bicicleta verde enferrujada que ganhou do vizinho no Natal de 88, da Páscoa com a família da tia-avó Adélia e do bolo de nozes que a tia Conceição da escola levava no seu aniversário. Não tinha lembranças dos pais, haviam partido para a serra de  Petrópolis pra nunca mais voltarem. Ou voltaram, mas não quer se lembrar daquele dia, levaram também Renato, seu irmãozinho de dois anos e meio. Acreditava estarem em um jardim muito verde e rico, dessas belezas isuportavelmente naturais. Renato vestido de branco, brincando entre as margaridas. Não, não acreditava em um fiapo disso tudo. Pensava em seguida que eram pó, que do pó vieram e que logo viraria pó também a única pessoa que lhe restava, a vó Odília. E cantarolava Chico Buarque de olhos vermelhos.
Joana não tinha amigos, era tímida demais, não sabia conversar e seus papos-cabeça eram chatos. Enquanto falavam de novela, ela rebatia frases de Kafka. Chata pra caramba essa menina, hein. Era o que ouvia nas entrelinhas.
Também nunca tinha namorado, embora tenha sido apaixonada a vida toda por ele. Ele que, de manhã cedo passava para ver como vó Odília estava. Que pedia dois dedinhos de café com uma colherinha de açúcar, pois estava de dieta. Que um dia, um único dia, olhou em seus olhos fundos e disse Joana, precisa de um namorado.
Como era lindo sonhar com ele de terno no altar, sorrindo depois de ter descoberto quanta coisa linda ainda estava dentro dela. O quanto ela era especial por dentro. E escrevia cartas de amor que nunca mandava, ensaiava o número do telefone da casa dele, o primeiro beijo nas costas da mão. Mal se lembrava do primeiro beijo, o dia em que Fernando, o primo de quarto grau a segurou pelas bochechas e tacou-lhe aquela língua molhada por dentro de sua boca. Queria o beijo dele, a língua molhada dele. E adormecia assim, entre desejos de língua molhada e o toque macio das mãos que já lhe conheciam o corpo, embora ninguém suspeitasse.
Numa manhã de inverno ele veio visitar vó Odília. Joana foi buscar o café e, como numa cena de novela, ele a segurou pelo braço. Sua pele arrepiou até a ponta do mamilo, suas pernas falharam, sentiu um segundo de tontura e e os lábios estremeceram: sim? E ele lhe disse: Vamos ver o rio. É bonito no inverno.
E caminharam os dois quietos pelo atalho de terra até a margem do rio. Ficaram ali, mudos, como dois pombos na chuva, a olharem o casebre abandonado do outro lado da margem. Está com frio? perguntou ele. Sim, ela sorriu de lado. E então ele lhe passou os braços pelos ombros e ela sentiu algo que nunca havia sentido antes. Um coração que batia alto e tinha medo que ele ouvisse, que lhe fazia atenta de todas as partes do seu corpo, um frio quente que subia da base da espinha até a nuca. E aquele foi o momento mais lindo da sua vida.

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